Notícia

Vai fazer uma trilha? Um guia completo do que deve ter na mochila

O interesse pelo ecoturismo e pelas trilhas de curto e longo curso cresceu exponencialmente nos últimos anos. Dados do Ministério do Turismo apontam que o turismo de aventura corresponde à 13% da preferência nacional. No entanto, o aumento do fluxo de pessoas em áreas naturais traz um alerta: a falta de preparo pode transformar um momento de lazer em um incidente grave. 

Para garantir que a única lembrança seja a paisagem, o clínico geral da Rede de Hospitais São Camilo de São Paulo, Thiago Piccirillo, explica quais os cuidados indispensáveis para todo trilheiro. “Muitos incidentes podem começar antes mesmo de o trilheiro chegar ao destino. O primeiro passo é a escolha da trilha, que deve ser compatível com o condicionamento físico do praticante, levando em conta o desnível altimétrico e o tipo de terreno”, comenta.

Nesse cenário, a escolha da vestimenta não é uma questão de estética, mas de proteção. “Roupas de tecidos sintéticos, como o poliamida ou poliéster, são ideais por secarem rapidamente e não pesarem com o suor. Nos pés, botas ou tênis de trilha com solados antiderrapantes evitam quedas em terrenos úmidos ou instáveis”, ressalta o clínico geral. 

Quando o assunto é o que levar dentro da mochila, alguns itens são considerados inegociáveis:

Água e comida: em uma trilha, o esforço físico é constante e muitas vezes ocorre sob sol ou altitude, o que acelera a perda de líquidos e altera a glicose. Nessas situações, o mínimo de água que deve ser levada para uma trilha de um dia inteiro é 2L. 

“Se o clima estiver muito quente ou a subida for íngreme, o corpo pode precisar de 500ml a um litro de água  por hora de caminhada. Outro ponto importante é não esperar sentir sede para beber água. A sede já é um sinal de desidratação leve. Também leve um sistema de purificação (pastilhas de cloro ou filtros portáteis) caso precise reabastecer em fontes naturais”, explica Piccirillo.

Para se alimentar, opte por frutas secas, mel e barras de cereal pois dão um “pique” imediato quando você sente o cansaço bater. Alterne com alimentos que possuem gorduras boas, como castanhas e nozes, que mantêm o corpo saciado por mais tempo e evitam a fadiga muscular extrema. O sal nas castanhas também ajuda a repor os eletrólitos perdidos no suor.

Lanterna: Mesmo que planeje fazer toda a trilha durante o dia, imprevistos como um tornozelo torcido, um erro de navegação ou uma árvore caída no caminho podem atrasar o grupo em poucas horas, mas o suficiente para o sol se pôr. A lanterna de cabeça é a melhor opção, pois deixa as mãos livres para se equilibrar em pedras ou segurar galhos. Além disso, usar o celular como lanterna é perigoso porque a bateria acaba rápido, o LED não alcança longas distâncias e, se derrubar o aparelho ou ficar sem bateria, ficará sem luz e sem comunicação.

Capa de chuva, corta-vento e protetor solar: o clima na montanha ou na mata muda com uma velocidade impressionante. Às vezes não está chovendo, mas o vento no topo de um morro pode “roubar” todo o seu calor. Uma camada fina que bloqueie o vento faz uma diferença enorme no conforto térmico.

“Corta-vento e capas de chuva são imprescindíveis em qualquer trilha. Mesmo que o céu esteja azul, uma chuva repentina pode molhar sua roupa e, com o vento, baixar sua temperatura corporal rapidamente, levando à hipotermia (mesmo em climas tropicais). Capas de estilo poncho também ajudam a proteger a sua mochila”, comenta o clínico geral.

Além disso, em altitudes maiores, a camada atmosférica é mais fina e os raios UV são mais agressivos. A queimadura solar não é apenas dolorosa, ela também desidrata o corpo e pode causar fadiga sistêmica.

Como montar um kit de primeiros socorros?

Outro item inegociável é o kit de primeiros socorros e existem alguns itens que todas as pessoas que apreciam trilhas devem levar. Dentre os principais, estão:

  • Curativos adesivos de tamanhos variados e gaze estéril para limpar e cobrir feridas maiores. Além de esparadrapo ou fita micropore para fixar gazes (o micropore é melhor por deixar a pele respirar). Leve também curativos específicos para bolhas que protegem a pele onde o calçado está machucando.
  • Bandagem elástica (atadura) para imobilizar um pulso ou tornozelo em caso de torção (entorse) e antisséptico em spray ou lenços umedecidos com álcool (pesam menos que frascos de soro).
  • Sachês de sais de reidratação oral são importantes pois são leves e salvam em casos de exaustão por calor.
  • Pinça, para remover farpas, espinhos ou carrapatos, e tesoura pequena para cortar faixas ou roupas – se necessário.
  • Luvas de procedimento com o intuito de garantir a segurança ao cuidar do ferimento próprio ou de outra pessoa.
  • Apito de emergência caso alguém se machuque e precise pedir ajuda sem gastar energia gritando.
  • Medicamentos básicos, além daqueles de uso contínuo (se houver), como analgésicos, antitérmicos, anti-inflamatórios, anti-histamínico e para azia ou diarreia, com o intuito de ter à mão caso seja necessário. Não esqueça de considerar possíveis alergias daqueles que estão no grupo de trilha.
  • Manta térmica de emergência (aluminizada), que é um item que pesa apenas alguns gramas e é acessível. Ela serve para manter o calor do corpo em caso de acidente onde você precise esperar resgate à noite ou sob frio intenso.

“A dica final é manter seu kit sempre seco (em sacos estanques ou Ziplocs), revisar a validade dos itens semestralmente e buscar treinamento básico. Se tiver alergias graves, deixe seus medicamentos em local de fácil acesso e informe seus acompanhantes”, ressalta o médico.

A comunicação é outro fator importante, ou seja, nunca saia para uma trilha sem avisar alguém de confiança sobre o seu roteiro e o horário previsto de chegada. Como o sinal de celular é instável em áreas de mata, o uso de mapas offline e aplicativos de GPS é a recomendação padrão para evitar desorientação.

Como agir em casos de emergência?

Saber como agir nos primeiros minutos após um incidente pode evitar que o quadro se agrave. “As duas situações que demandam atenção no turismo de aventura são entorses e picadas de animais peçonhentos. Porém, em áreas remotas, o objetivo não é ‘curar’, mas sim estabilizar a pessoa até que ela possa chegar a um hospital ou ser resgatada”, explica o médico.

Segundo o especialista, o resgate deve ser acionado imediatamente se: houver suspeita de fratura (deformidade ou incapacidade total de movimento); a vítima apresentar sinais de choque (pele pálida, fria, pulso rápido e fraqueza); houver perda de consciência ou confusão mental; ocorrer picada de cobra, mesmo que a pessoa pareça bem no início.

Por fim, onde não houver sinal de celular, envie alguém do grupo (sempre em dupla) de volta até o ponto onde o sinal funciona, levando anotado: local exato (coordenadas GPS), horário do acidente, sintomas da vítima e descrição do animal (se possível).

Deixe um comentário